sexta-feira, 17 de maio de 2013

Lisboa: a Fábrica do café de verdade

Pastéis de Belém. Fonte: http://lisboadiarios.blogspot.com

Quando eu lembro da viagem que fiz pra Lisboa, em 2007, parece que foi ontem. Mas quando vejo as fotos, me sinto muito mais velho que os 6 anos que passaram.

O primeiro sinal é visível: pés de galinha e o segundo queixo, que eu não costumava levar naquela época. Depois, é lembrar que aquelas fotos só estão no meu computador, agora, porque eu ia com o meu cartão de memória 256MB até uma Lan House, transferia as fotos pra um PC e queimava um CD-ROM. Quanto vocabulário obsoleto pra meia dúzia de imagens. Smartphone era coisa novíssima, pra poucos, e check-in era termo exclusivo de aeroporto.

Aquilo foi o começo de tudo pra mim, a viagem que mudou minha vida e me deu o clique "preciso arrumar um jeito de viver pra viajar". Que sorte ter sido Lisboa. Ainda não achei um lugar que nem aquele e sempre falo de lá com todo o fanatismo que posso.

Então, uma pessoa muito querida foi à Portugal, gostou das minhas indicações e, na volta, veio mostrar as fotos. Em uma delas vi que, ao lado da Fábrica dos Pastéis de Belém - a cafeteria quase bicentenária que criou a receita do doce mais famoso de Portugal, o pastel de nata -, estava instalada uma novíssima Starbucks, com muito mais movimento que vizinha tradicional.

Achei estranho. Nada contra o take away coffee americano, mas uma cafeteria que serve café de 300 ml se dar tão bem, justo ali? Não precisa de supersize por causa do super-preço. Café é café. Se não, imagina só o dia que os EUA lançarem uma tequila que faça sucesso.

F'ábrica dos Pastéis de Belém. Fonte: http://perlavitafl.blogspot.com

Voltando à 2007, lembro que o guichê da estação de trem me viu com tanta caixa de doce quando eu voltava dos Pastéis de Belém, que até me perguntou qual era a publicidade que eles tinham no Brasil. Eu falei que era porque Pastéis de Belém, só ali. O resto era pastel de nata.

Naquela época, a Starbucks ainda não tinha erguido o neón verde com a mulher descabelada que ofusca o mosaico na calçada à frente da "Fábrica".

Hoje, pro simpatissíssimo funcionário da companhia de trens, eu falaria que, mais que a receita original de um dos doces mais queridos pelos brasileiros, o segredo é que a Fábrica dos Pastéis de Belém ainda serve boas bicas. O resto é café de copão.

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Mais sobre Lisboa:
- Lisboa: onde ficar
- 10 motivos pra incluir Lisboa no seu roteiro pela Europa
- Português, um idioma quase igual ao nosso
- Os caminhos de Lisboa
- O Rossio, em Lisboa
- Portugal: hora da janta
- Estádio da Luz, o estádio do Benfica, em Lisboa
- Informação lisboeta, a mais completa

sábado, 11 de maio de 2013

Onde ir em Barcelona: não se esforce pra não se perder

Um dos vários tapas-bar da Carrer de la Princesa, um dos "calçadões" da Barcelona velha

O legal de Barcelona é que todos os bairros têm seu calçadão. O Barri Gótic e o Raval dividem Las Ramblas, embora o segundo tenha sua própria Rambla - menor, menos genérica e com muito mais personalidade. Ribera, ao leste, é cortado pela Carrer de la Princesa e suas fachadas de lojinhas centenárias de lado a lado e, o Born, tem o Passeig del Born que, cheio de barzinhos, se torna muito mais respeitável após o cair da noite.

Barceloneta, já na costa, se dá ao luxo de ter dois deles: o Passeig de Joan Borbó, com vista para o porto, e o calçadão propriamente dito, de frente pro mar. Mesmo o L'Eixample, não tão antigo quanto o resto da cidade, mas nem tão novo assim que não possa ser chamado de cidade velha, tem o seu centro de gravidade, que é o Paseig de Grácia, onde estão as melhores casas de Gaudí (mais comentadas neste outro post aqui).



Cortiços do Bairro Gótico

Até a fachada da sapataria tem seu charme na Barcelona velha

Como bons calçadões, todos eles têm dezenas de mesinhas espalhadas, de todas as formas e tamanhos. Uma pena que quase nenhuma delas tenha escapado de um fenômeno que vem afetando todas as cidades mais queridas da Europa: a cerquização das mesas de calçada. A preocupação com segurança em Barcelona é um pouco maior, dizem, por causa dos pequenos furtos que acontecem todos os dias. Eu não acredito que seja em quantidade maior que na Itália ou na França, a não ser pelo fato que, na Espanha, as mesinhas ficam pra fora mais tempo: só sai pra jantar antes das 9 da noite quem não gosta de companhia.

Pra mim, que sempre tive hábitos tardios, não podia ser melhor. Outra vantagem de Barcelona: a partir de fevereiro, já dá pra visitar só com uma jaqueta leve. E de dia você talvez nem precise. É só pra noite mesmo, quando dá aquela esfriadinha que só ajuda o vinho tinto a descer melhor.

De bairro em bairro, de rua a rua, de tapa em tapa: é fácil enxergar o charme e o romantismo de Barcelona.




Cidade Velha - Raval / Barri Gótic / Born / Ribera

Você sempre está bem localizado em Barcelona. Se, por acaso, acabar num lugar mais ou menos, vai ter algo bom a cinco minutos de caminhada ou a 10 de transporte público.

Adendo: seguindo dica da Patrícia, do Turomaquia (O BLOG a ser visitado por qualquer pessoa querendo ir à Espanha), comprei o T-10, ticket com 10 viagens em qualquer modalidade de transporte público, logo no aeroporto.

A verdade é que separar os bairros dessa região é muito difícil. As avenidassas que deixam os limites físicos bem claros são as mesmas que esclarecem que, há não muito tempo, esses bairros eram o  mesmo. A alma da cidade está ali. Com todo respeito que o resto da cidade merece, aquilo é Barcelona. As catedrais e os restos de cidade medieval, com ruelas que desembocam em praças enormes dominadas por um monumento ao centro - como a Plaça Reial ou a Plaça St Jaume, fazem qualquer caminhada no Barri Gótic liberar a imaginação para tentar adivinhar tudo que já aconteceu por ali. Na Plaça Santa Maria, ao pé da basílica de mesmo nome, há tudo que é necessário: a meia luz, os artistas de rua, a igrejona ao fundo e a renúncia total à pressa. Todo mundo dividindo mesas tão juntas, que é difícil saber a qual dos vários tapas-bar da praça elas pertencem.

Cantor de rua se prepara para começar apresentação

Farmácias centenárias pontilham o Bairro Gótico

Inércia, bar no Born, numa noite de muita ventania


Sentia vontade de fazer uma peregrinação por esses tapas-bar todos os dias, mas era um tanto complicado. A tentação de forrar a mesa com várias porçõezinhas de coisas diferentes, apenas para experimentar, é proporcional ao preço que se paga por elas. Se a tradição das tapas surgiu como uma cortesia para agradar clientes que ligavam muito mais pro álcool que pra comida, hoje elas tem preços mais altos que os dos drinks, embora ainda sejam usadas como desculpa para beber.

Depois de levar chapéu e pagar conta alta por comida ruim em alguns lugares, acabei criando meu próprio tapas-bar-quality-indicator pra não cair no conto mais vezes: se escutava muito inglês, o bar devia ser ruim; se escutava espanhol, é porque era popular entre a grande comunidade de latino-americanos; se escutava um treco que soava espanhol, mas não dava pra entender nada, é porque o lugar estava cheio de gente falando catalão. Para as duas últimas opções, a conta continuou alta, mas a comida era divina.

E quase todos são bem pequenos e convidativos. Alguns tão apertados, que nem precisam de
cardápio. Qualquer cliente fica perto o suficiente da vitrine, no balcão, para apontar qual tapa quer. Calamares fritos e pãozinho com presunto cru (jamón del país) são ridiculamente bons.

Bares de degustação de vinho também estão no auge em Barcelona

Meia dúzia de pessoas se espremem no balcão deste barzinho do Raval


Duas mesas e pronto. Quem precisa de bar gigante?


Outra coisa em comum é que os garçons são, raramente, espanhóis. Muitos vêm da Índia, Marrocos, China e de outros países onde, como no Brasil, a Europa é vendida como o paraíso. Os espanhóis, mesmo, foram trabalhar no Reino Unido e na Alemanha.

A noite é eclética: boêmia, baladeira ou gastronômica, tem pra todo mundo. Uma madrugada no Born revela que Barcelona, tão aparentemente desleixada, é extremamente vaidosa. Mesmo o que está mais caidinho, parece cuidadosamente bagunçado. A cidade é muito consumida por gente jovem e adolescente não gosta de nada certinho.

E quando comer pequenas porções não for mais suficiente e der vontade de fazer um pratão, é hora de ir para a Barceloneta, pedir um peixe assado, pescado no próprio dia.


Bairro Gótico

Começo de domingão no Born

Vitrine de uma "charcuteria", ou açougue, na cidade velha


Na cidade velha, durante o dia, as Ramblas estão quase sempre no meio do caminho. Entre uma lojinha sem graça e outra, a avenida mais famosa da cidade mostra, no Mercat La Boquería, onde está guardada toda a autenticidade que falta ao resto da rua. O primeiro mercado da cidade empilha frutas e peixes frescos lado a lado há mais de 170 anos e, entre os mercadomaníacos (eu, incluso) que têm uma manga em uma mão e a câmera na outra, ainda há velhinhas com carrinhos escolhendo batata por batata. Um pouco menor e menos movimentado, o Mercat de Santa Catarina, com seu teto ondulado e a estrutura de madeira desencaixada, que parece querer desabar a qualquer momento, também é ótimo para o primeiro café-com-leche do dia.


Mercat de Santa Catarina

La Boquería

La Boquería é uma tempestade gourmet: cheiros e cores quase infinitas

Mercat de Santa Catarina. Queria morar em Barcelona só pra fazer supermercado aqui

Desligue o GPS. Guarde o mapa. Siga o ritmo de vida local que, ora frenético, ora interiorano, guarda
uma noite interminável seguida de uma manhã de cafés onde as pessoas conversam ao vivo e lêem jornal, ao invés de procurar o sinal de wi-fi. Em Barcelona, não é necessário deixar o mundo pra trás para colocá-lo de lado.


Mais sobre Barcelona:
- Barcelona: até que lembra a Europa
- Sagrada Família, CasaBatló, La Pedrera e Park Güell: o melhor de Gaudí em Barcelona

terça-feira, 30 de abril de 2013

Casa Batló, La Pedrera, Park Guell e Sagrada Família: o melhor de Gaudí em Barcelona


Torres da Sagrada Família, em Barcelona: a obra inacabada de Gaudí

Quando os 20 e poucos euros são cobrados pela recepcionista no guichê da Casa Batló ou da La Pedrera, o valor alto assusta. Mas entre escolher entre elas ou uma de suas refeições para o sacrifício do dia, não hesite: fique com o alimento pra alma. Ir à Barcelona e não entrar nas casas de Gaudí é como tomar café descafeinado ou cerveja sem álcool. Ao contrário da Sagrada Família, que é especial, mesmo, por sua arquitetura externa, as casas desenhadas por Gaudí têm, em sua fachada, apenas uma introdução.


Casa Batló e La Pedrera

As cores da Casas Batló e suas sacadas e janelas em forma de ossada nunca foram desvendadas por completo. Vai ver algo saiu errado e Gaudí não quis admitir; ou então o contratante não quis mesmo revelar todos os detalhes e, como a casa ainda é propriedade privada, isso talvez nunca aconteça.

Depois de mais de uma hora dentro da Casa Batló foi que eu lembrei ter um audioguia pendurado no pescoço. Escutei uma faixa ou outra dos cômodos mais relevantes, mas aí já era tarde: a essa hora eu já tinha minhas próprias conclusões.

Os azuleijos de cor pastel e a madeira envernizada eram a tendência e, por isso, criam uma atmosfera de casa da vovó, desde a fechadura até o último centímetro da chaminé. É algo meio pop, que um dia deve ter sido estupidamente novo, mas agora carrega o charme de antiguinho.

Janela principal da Casa Batló

Detalhes das sacadas da Casa Batló

Páteo interno


As formas arredondadas nos acabamentos de tetos e portas eram a ousadia e a fantasia - a rejeição às linhas retas e preferência por formas inusitadas e mais dinâmicas, da água ao esqueleto de um dragão, inspiraram o conceito da casa.  Não sei como eram recebidas as casas de Gaudí no momento em que eram entregues mas, com tanta interferência na cabeça de quem as vê mais de 100 anos depois de prontas, dá pra dizer que ali deve morar um hobbit do Senhor dos Anéis.

Há também luz de sobra para que os detalhes sejam observados - mesmo os interiores eram planejados como exteriores. O páteo interno na Casa Batló, embora um pouco esprimido, ainda recebe luz natural; na Pedrera, o páteo é bem maior e iluminado pelo sol quase o dia todo - mesmos as áreas internas são corredores circulares, com janelas para o lado de fora, como se estivessem te empurrando para curtir o dia lá fora. Em ambas as casas, o teto é uma área de lazer além das mesinhas com vista panorâmica, vistas no topo de quase todas as construções do L'Eixample, bairro em que estão localizadas - na Pedrera, é como um labirinto, observado por chaminés agrupadas em duplas ou trios e que se parecem com faces de soldados quando vistas de perto, mas doces gigantes quando vistas de longe.

O delírio que se sente dentro das casas é como poder entrar um pouco na mente do criador delas. E é tamanho que, na saída, é capaz de fazer acreditar que a árvore seca de outono, na calçada, foi feita com aquelas formas para que combinasse com a casa. É uma alucinação difícil de ser descrita. O abstrato de Gaudí é tão lúdico e infantil, que faz com Barcelona possa ser lembrada não só como cidade pecadora mas também, ótimo destino para ir com crianças.

No Park Guell, aliás, cheguei por volta das 9 da manhã e já era tarde. Sexta-feira e centenas de excursões da criançadinha que mal sabia falar estavam espalhadas. Se mal sabiam falar, imagina escrever - e a diferença na educação mora mesmo nestes lugares que sabem que nem um deles significa que a criança não saiba se expressar. Elas estavam lá, todas desenhando, sem se preocupar com julgamentos ou convenções, sem nem saber ainda o significado de certo ou errado.

Portão principal da La Pedrera


Ninguém sabe se elas vão tomar gosto pela arte mais tarde e querer fazer algo no campo, mas nunca ninguém me peguntou se eu queria ser farmacêtico antes de ensinar ligações moleculares no colegial.

Abaixo do teto (de novo, o teto), que é a área onde se concentra toda atividade do parque por oferecer as melhores vistas, estão as colunas que Gaudí desenhou para imitar colunas romanas, mas com um efeito único: elas tem uma inclinação que só se revela dependendo do ângulo em que são observadas. É fácil se flagrar perguntando se aquela coluna entortada, ao seu lado não estava reta há alguns segundos atrás.

La Pedrera

Páteo interno da La Pedrera

La Pedrera

Visitantes passeiam pelo teto da La Pedrera


O Park Guell, ao contrário das casas mais famosas da rua do Paseig de Grácia, não cobra entrada. O que poderia ser um museu privado e cheio de frescurites (foi projetado, inclusive, sob esse ponto de vista), é tão público quanto as ruas que o cercam.

As formas distintas das duas contruções que ficam logo na entrada só não são mais reconhecíveis porque Gaudí ainda teve tempo de sonhar mais alto e projetar uma igreja que, nem pelos próximos cento e tantos anos, ficaria pronta. Parece brincadeira que aqueles guindastes que atrapalham a foto de todos os turistas desde 1882 (já tinha foto nessa época?) ainda estão trabalhando na Sagrada Família (Templo Expiatório de la Sagrada Família), mas é verdade. Sei lá quantas técnicas diferentes já foram empregadas durante este tempo todo, mas das 18 torres planejadas, ainda faltam 10. O impulso que Gaudí tinha de ir direto ao assunto e pular etapas do planejamento não proporcionou que ele pudesse, em vida, ver mais de sua obra prima - mas o que pode consagrar mais uma mente brilhante, que uma bela visão que não pode ser concretizada a tempo?



1 - Do teto da La Pedrera é possível avistar a Sagrada Família / 2 - Colunas do Park Guell


Do teto do Park Guell, vistas lindíssimas de Barcelona, com a a Sagrada Família sempre presente

Park Guell

Park Guell


A catedral esprimida em um quarteirão - do mesmo tamanho de todos os outros ao seu redor -, se estica e sua verticalização fica ainda mais evidente. De quase todos os pontos do L'Eixample é possível ver as torres equilibrando esferas no topo, mas apenas da base pode-se contemplar as várias fachadas que parecem ter algo diferente a cada vez que se olha. As figuras religiosas marcam uma das poucas vezes em que Gaudí não investiu no abstrato mas, mesmo assim, a falta de elementos góticos e o uso de cores faz da Sagrada Família uma caricatura das catedrais tradicionais.

A primeira vez que vi as fotos da Sagrada Família - eu ainda nem sabia se teria a chance de vê-la um dia e, pra falar a verdade, nem sabia o que ela era e nem onde ficava - com os guindastes intrometidos, a cor marrom-alaranjada e as formas tão aleatórias  me davam impressão de que aquele castelo de areia estava pra desabar a qualquer momento e, por isso, as obras eram parte de uma manutenção constante.

Já vi uma história de que Picasso não gostava do que Gaudí fazia. Uma história perfeita pra completar o que faltava no cenário: grands personagens e, de preferência, rivais. É duro né, Pablo, mesmo tendo sido tão genial, ver seus quadros num museu, por melhor que ele seja, e a obra do outro cara espalhada pela cidade.

Park Guell
 
Iluminação noturna da Casa Batló

Mobília da Casa Batló, também desenhada por Gaudí especialmente para a casa

 
Detalhes da fachada "arenosa" da Sagrada Família


Mais sobra Barcelona:
- Barcelona: até que lembra a Europa
- Barcelona: não se esforce pra não se perder

domingo, 21 de abril de 2013

Barcelona: até que lembra a Europa


Com estilo de vida único e escrachado, Barcelona se destaca como cidade liberal e das artes

Barcelona é muito relaxada pra uma cidade do seu tamanho, muito revolucionária pra um lugar de tantas tradições, muito segura pra ser considerada um paraíso de batedores de carteira e, entre tantos outros rótulos controversos, é muito rebelde pra se encaixar em qualquer um deles.

Maior cidade da Catalunha e líder do movimento que pede a independência da região, Barcelona vê seu nome associado a esta dicussão em cada vez que é citada - como se, quando isso acontecesse, o assunto pudesse ter um ponto final.

Para uns, movimentos seperatistas não são vistos com bons olhos - o aspecto de nação desunida causa tensão; para outros, o Reino da Catalunha nunca deveria ter sido anexado a Espanha e, por isso, deveria ter sua soberania devolvida - é a mais pura verdade, mas também é interpretativo, ou não é este mesmo toma lá /da cá que conta a história de cada um dos outros países do mundo?

Ribera, Barcelona

A chuva faz o clima vintage do Born ficar ainad mais evidente

"Vale, Vale" (o equivalente em espanhol para "tá bom"), eles tem muito mais orgulho de ser catalães que espanhóis. Mas o fato é que esse orgulho, expressado especialmente em Barcelona, não é diferente do meu por ser paulista, de um carioca por ser do Rio ou de qualquer um de nós por ter carinho pelo lugar de onde veio. Apesar da influência francesa, os catalães são espanhóis, sim, como mostra o sotaque - inclusive na hora de trocar o V por B na hora de dizer "vale, vale". Igualzinho ao resto do país.

Enquanto separatistas e nacionalistas discutem eternamente o futuro de Barcelona há milhares de anos, ela se mostra um lugar diferente justamente quando isso é colocado em segundo plano. Cicatrizes de guerras e períodos negros das guerras causadas por essas discussões construíram a identidade da cidade alternativa e das artes - o estilo medieval gótico virou barroco, que virou vanguardista, que virou moderno e, nos dias de hoje, Barcelona transborda design nos hotéis (mesmo os mais baratos) e em cafés e barzinhos que, às vezes, não comportam mais que 3 mesas.

Não interessa se os tempos são, novamente, difíceis. A crise que estourou em 2008 (e parece longe de acabar) vêm batendo na Espanha sem dó. Mas arte, em Barcelona, não é luxo - é elemento fundamental do dia-a-dia de quem preza pela qualidade de vida.

Felizmente, os revolucionários de discurso bonito que fizeram atrocidades perderam espaço e outros revolucionários de verdade nunca pouparam esforços para colocar Barcelona na crescente. A Olimpíada de 92, sempre usada como melhor exemplo de bom uso do evento para deixar um legado para a cidade-sede, transformou a zona portuária e a costa de Barcelona por completo - da Barceloneta, bairro tradicional operário que passou a abrigar diversos restaurantes, até as praias do Poblenou, ex-área de galpões industriais que passou a ser uma das zonas residenciais mais valorizadas da cidade.

Janela principal da Casa Batló, vista de fora...

...e a mesma janela principal, vista de dentro da casa

Detalhe dos azuleijos coloridos, muito usados por Gaudí

E muito antes disso, no final dos anos 1800, o L'Eixample apareceu como um dos maiores projetos de planejamento urbano que já existiu, com seus quarteirões paralelos de quadrados perfeitos, conectando a Barcelona velha, próxima a costa, à Grácia, já perto das montanhas. É por ali que estão pontilhados o melhor do que foi deixado pelo freelancer espanhol mais contratado do século 20, o arquiteto António Gaudí. Entre as casas alucinógenas construídas pelo seu talento, destacam-se a La Pedrera (Casa Milá é o nome oficial) e a Casa Batló. Como todo gênio, ele deixou algo grandioso inacabado: a Sagrada Família, obra em andamento pelo período mais longo da história.

- Casa Batló, La Pedrera, Park Güell e Sagrada Família: o melhor de Gaudí em Barcelona

Gótic, Born e o Raval, bairros do centro da Cidade Velha, viram Picasso, Miró e até Dali crescendo, se aperfeiçoando e se embebedando. E foram vistos com igual admiração por todos eles, que mergulharam intensamente na atmosfera liberal da cidade. A Barcelona de hoje agradece - ela se inspira neles assim como eles se inspiraram nela. Picasso tem, inclusive, seu próprio museu, o Museu Picasso, com três andares de um repertório imenso do seu início de carreira. Uma coleção do tamanho de seu talento e ego juntos - e olha que não dá pra saber qual dos dois era maior.

Catedral da Sagrada Família, monumento mais reconhecível de Barcelona
 
Bares pequeninos estão lado a lado no Paseig del Born, rua da noite no bairro de mesmo nome

"Pán con jamón del país", encontrado em qualquer menu de tapas de Barcelona


Barcelona tem romantismo e a malandragem lado a lado. Arte de dia, álcool de noite. Quem não é artista, vira - a lei branda contra crimes pequenos, como furto, estimula os batedores de carteira, mas só após um belo golpe ser aplicado em turistas desavisados que aceitam os abraços distribuídos na Rambla. Nada alarmante pra quem se vacionar contra o bicho da tontisse viajística (aquele que faz a gente acreditar que nada de ruim acontece fora da nossa cidade).

Rambla, aliás, constantemente chamada de Ramblas. Isso porque há cinco divisões imaginárias ao longo do calçadão de um quilômetro que vai da Praça Catalunya até a estátua de Cristóvão Colombo (Colón), no Port Vell. Elas são o centro natural de Barcelona, o ponto de gravidade e onde, talvez, você se sinta mais na Europa - não só pela arquitetura, mas pelos restaurantes absurdos de caros, grupos de 100 pessoas por centímetro e as mãos leves se deliciando. Uma caminhada de cabo a rabo não é desperdício de tempo, mas os labirintos do bairro gótico e o charme da Ribera e do Raval são inconparavelmente mais carismáticos e autênticos.

Las Ramblas

Ribera

Praça Catalunya

Park Güell

Barcelona não é a cidade mais bonita do mundo, mas está muito longe de ser a mais feia. Ela se deixa compreender muito mais pelo cara que relaxa e deixa de querer saber tudo - das datas aos nomes das igrejas. É muito melhor gastar o dia passeando no Park Guell e se deslumbrando com as vistas, tanto do parque, quanto da própria cidade, preocupando-se apenas com quais serão as tapas a ser escolhida mais tarde, num dos bares do Born.

Depois de visitar Barcelona, a Europa se torna resto.

Mais sobre Barcelona
- Casa Batló, La Pedrera, Park Güell e Sagrada Família: o melhor de Gaudí em Barcelona
- Barcelona: não se esforce pra não se perder

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Como baixar os preços da sua viagem para a Europa 3: não custa nada!





Lucerna, Suíça


O primeiro post da mini-série "Como baratear sua viagem para a Europa dizia por quê viagens independentes são sempre mais baratas. O segundo, listou atrações gratuitas de Londres, uma das capitais européias mais amada por brasileiros. E agora, pra fechar o trio, o Esvaziando a Mochila e o buscador de passagens aéreas Skyscanner mostram o que, no velho continente, não custa nada!

1 Sabe por que a gente escuta falar tanto que quem mora na Suíça é rico? Porque é verdade. E quem diria que, numa terra que transborda dinheiro, algo poderia ser de graça. Em Genebra, cidade mais importante da parte francesa do país, resolveu implementar transporte público que não custa nada para seus visitantes, numa tentativa de trazer o pessoal que desdenha a cidade, por estar um tanto na contra-mão do trajeto de lugares mais procurados, como Interlaken ou Lucerna.

2 Em Roma, encher a garrafinha de água não custa nada. Se ver uma bica, vá em frente que é potável. E em Roma, esqueça essa necessidade diária que nós, como turistas, temos de encontrar algo pra fazer - andar pelas ruas é a melhor coisa a se experimentar por lá e é de graça.

Mais sobre Roma:
- Nem todos os caminhos levam a Roma, mas deveriam
- Roma, o que há de mais antigo
- Vaticano, um dia inteiro fora de Roma

Roma, Itália

Lisboa, Portugal

3 Não custa nada colocar Portugal no seu roteiro! Lisboa tem sido considerada, ano após ano, a cidade com os melhores albergues do mundo e os hotéis cinco estrela mais baratos. Uma cidade bonita, com comida espetacular, história, povo hospitaleiro e preços ótimos não pode desaponatr ninguém.

Mais sobre Portugal:
- Lisboa: onde ficar
- Lisboa: 10 motivos para incluí-la no seu roteiro pela Europa
- Os caminhos de Lisboa

4 Em várias cidade do velho continente, confiança  ainda é um valor apreciado. Não dê de espertão tentando embarcar sem bilhete em lugares onde o transporte público não tem catraca. As multas são pesadíssimas.

Estocolmo, Suécia

5 Não pule o café da manhã. Na ânsia de sair logo pra aproveitar mais o dia, o café da manhã às vezes fica de lado, o que faz com que o almoço seja aquela fartura e aí a preguiça vespertina acaba matando o resto do seu dia. Ir a um café ou buffet de hotel, todas as manhãs, é um prazer garantido na sua viagem e, certamente, mais barato que muito prato feito michuruca servido na hora do almoço.

Onde comer bem na Europa:
O Rossio, em Lisboa
- Al Picchio, Roma
- Leônidas, o chocolate bom e barato da Europa
- República Tcheca: onde a Bohemia não é assim tão melhor que a Bavaria
- Em Viena, Apfelstrudel e Sachertorte são doces irresistíveis

6 Esqueça Julho, Agosto e Setembro - principalmente para Itália, Espanha, Grécia e qualquer outro país do sul. Muitas cotoveladas, filas eternas e preços altos aguardam quem faz questão de viajar nesses 3 meses de alta estação.

- Europa: 10 coisas pra fazer na baixa estação

Viena, Áustria

Glasgow, Escócia

7 Ímãs de geladeira? Cartões postais? Estatuazinhas? Não precisa passar vontade, mas juntado o preço dessas coisinhas que a gente leva por impulso ,daria pra comprar uma camisa ou um tênis. Com a vantagem que a peça de roupa vai ficar bonita durante e depois da viagem, enquanto o souvenir parece tão típico no destino, mas te faz perguntar por que você comprou, quando você chega em casa.

Moscou, Rússia


Praga, República Tcheca


8 Não esnobe o leste! É menos desvendado, mais aventureiro, cheio de vestígios do que sobrou das revoluções e os governos socialistas e , principalmente, muito mais barato!

- Turismo soviético: por onde fazer
- Rússia: antes que tudo pareça impossível
- Praga: museu do comunismo


Outros posts da série Como baratear sua viagem para a Europa:
- Post 1 - Como deixar sua viagem para a Europa mais barata: viagem independete
- Post 2 - Como baratear sua viagem para a Europa 2: Londres de graça

Mais sobre viajar barato e dicas de viagem:
- Barateie sua viagem cuidando da logística
- Quarto de hotel: o que pode ou não usar/pegar
- Como usar cartões de crédito e débito no exterior (e o que fazer caso eles não funcionem)
- Como evitar sacanagens contra turistas, principalmente na primeira viagem