Cidades que são feitas pra pedestres me encantam. Nada como a sensação de liberdade pra quem não é apaixonado por carro. Parece que andando eu vejo as coisas com mais calma, consigo fuçar mais e ainda não me estresso procurando vaga. E quando o transporte do lugar é pensado como um todo, tudo flui: enquanto muita gente deixa o carro em casa pra usar metrô e ônibus, as ruas sempre estarão mais livres pra quem gosta de dirigir. É um bom efeito dominó.
Montréal é, definitivamente, uma dessas. Pra quem gosta de andar mesmo. Não consegui, nem com muita força de vontade, imaginar como poderia ser o inverno para aquelas pessoas que têm tanta coisa boa pra fazer do lado de fora.
Lá aconteceram duas situações que, em outro lugar, poderiam aborrecer bem. Não numa metrópole feita pra quem está desmotorizado: fui visitar o cassino que fica em uma ilha a frente da cidade - que também é uma ilha, mas muito maior. Na volta, peguei o ônibus errado. Apesar de ter me dado conta que ele não estava no caminho que eu pretendia, segui viagem. O trajeto dessa linha era pela margem da ilha, a margem que dava de cara pro skyline da cidade, do outro lado do rio. Uma vista fantástica. Desci uns três pontos depois e voltei pro cassino a pé, passando por uma noite iluminada e agradabilíssima de se perder. Essa foi na minha última noite lá.
Na manhã seguinte, a outra situação: saí as 5 da manhã do hotel pra pegar um trem. Chovia forte, forte mesmo. Não dava tempo de esperar passar, se não perderia a hora. Fui de mala e cuia pra rua, em direção a estação de metrô. Essa era a parte fácil, a estação mais perto era na mesma calçada do hotel. Entrei, olhei no mapa e fiquei procurando onde tinha que descer pra chegar à estação de trem. Verifiquei a mais próxima, me conformei que ia mesmo me molhar e pronto. Só não lembrei que Montréal tem a maior e mais integrada cidade subterrânea do mundo, que interliga pontos e mais pontos ao redor do centro, incluindo a estação de trem. Resultado: cheguei lá sem um pingo de água na roupa.
Entre os muitos lugares que valem caminhadas de horas em Montréal, algumas sugestões:
Estádio Olímpico
Vila Olímpica
Sede das Olimpíadas de 1976, o estádio só foi concluído mais de 10 anos depois. A arquitetura, futurista para a época, hoje deixa-o com uma cara cult, meio Star Trek. O teto é totalmente retrátil e a torre inclinada tem um piso panorâmico no topo, acessado por um elevador externo. Apesar de belíssimo, o estádio é lembrado pelos montrealenses como um péssimo exemplo de planejamento, pois sua conta só terminou de ser paga em 2006.
Maquete do Estádio Olímpico
O velódromo virou o Biodome, um parque fechado com simulações de vários ecossistemas. As piscinas onde foram realizadas as provas de natação são públicas e num dia quente, como fazia, caiu muito bem, obrigado.
Reprodução de Jardim Chinês no Jardim Botânico
Jardim Botânico
Jardins costumam ser inspriadores. Não sei se é porque em são Paulo há pouquísismos e eu quase não
vejo, mas de qualquer forma este jardim botânico de Montréal vale cada centavo. Logo na entrada, todo
mundo virando e revirando o mapa procurando o caminho mais curto para o jardim chinês. É mesmo o mais
bonito, mas o gigantesco complexo tem exemplares variadíssimos com paisagismo de primeira.
Jardim Botânico
Montréal vista do Mont Royal
Mont Royal
O topo do monte que deu nome a cidade pode ser alcançado por uma caminhada nível hard. É longa, íngreme e bem cansativa. A vantagem é que quando se chega lá em cima, a vista parece ainda mais bela. Uma vista bem familiar, porque é daqui que se reconhece Montréal como ela aparece no cinema. Hollywood adora filmar por lá, mesmo que seja pra fingir ser outro lugar. Prenda-me Se For Capaz, O Aviador, O Dia Depois de Amanhã, Roubando Vidas e O Estranho Caso de Benjamin Button são alguns dos longas com cenas na cidade.
Rue Sainte-Catherine
Cultural, festeira e bem humorada, Montréal é uma cidade pra cima. Uma cidade deste tamanho que tem duas línguas oficiais - inglês e francês - faz você refletir a todo instante sobre o que é ser multicultural. Sinalizações de rua até as embalagens de xampu, tudo tem que ser planejado de uma forma diferente. A Rue Sainte Catherine é uma caminhada extensa que ajuda a compreender o que isso significa. Atravessando a cidade da parte inglesa a francesa, passando por praças e o centro financeiro, cada quarteirão da Rue Sainte-Catherine é curtível a qualquer hora.
Estação de metrô imitando as parisienses
Circuito Gilles Villeneuve
Não necessariamente uma caminhada. Este aqui é mais divertido fazer de bicicleta. Um dos circuitos mais emocionantes da F1. Fica na mesma ilha do cassino e as bicicletas têm que ser alugadas na cidade e levadas pra lá, já que não há aluguel no próprio autódromo.
No próximo post: mais bateção de perna na maior cidade bilíngue do mundo