Ao contrário do que eu imaginava, o turismo de Praga nunca foi pequeno. "Mesmo em épocas de de União Soviética, já era um destino bem procurado por habitantes do bloco" - me contou uma estudante de hotelaria em uma conversa de trem - "A diferença é que agora Praga é que ficou pequena para o turismo."
De fato, Praga tornou-se diminuta pra tanta gente. Ela vive, hoje, uma romanização - existe um raio a partir do centro, onde estão concentradas as principais atrações, que virou uma área de extinção de nativos. Quase não há moradores, porque a maioria já foi empurrada para subúrbios residenciais e não existe mais baixa temporada. Verão é verão, a Europa sai de férias e viaja mesmo; o Inverno é frio pra danar mas tem o apelo da neve e das decorações de natal, que deixam a cidade com uma atmosfera épica; e primavera e outono são a alta estação de quem não gosta da alta estação.
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| Old Town Square - o centro da cidade velha, onde Praga começou |
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| Relógio Astronômico, na Torre da Prefeitura da Cidade Velha |
Se isso é ruim? Por um lado, os grupos que começam a brotar de tudo quanto é lugar a partir das 9:30 da manhã deixam as zonas principais num clima meio Disney. Por outro, o turismo é um mercado que gera grana e empregos como nenhum outro, em todas as áreas.
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| Bonde: depois dos seus pés, o melhor jeito de se mover em Praga |
Além disso, com o crescimento de Praga, não só a região central se mantém vitalizada, como bairros mais afastados também. O Zizkhov, por exemplo, dono de um patrimônio arquitetônico fantástico, se torna ainda mais vivo quado a noite cai. Os bares da moda se acendem, com iluminações minuciosamente planejadas pra serem vistas do lado de fora, pelas vidraças gigantescas, chamando o pessoal pra ambientes ultra aconchegantes. Fica fora do circuito turístico, mas é facílimo de chegar: o metrô Jiriho z Podebrad fica no meio do bairro. Foi no Apetit, um restaurante simples na Rua Vinohradská, que comi o melhor, mais barato e mais farto goulash da viagem toda - 100 Kc (+ ou menos 10 reais).
É de noite, também, que Praga se torna ainda mais cenográfica. Contradizendo uma forte tendência das cidades grandes, não fica mais bonita porque, as luzes, espantosamente fracas, tingem as
ruas e paredes de amarelo. Mesmo a Ponte Carlos, o principal marco da cidade, não consegue escapar. Os monumentos que vigiam os dois lados da ponte mais antiga da Europa são tão sombrios, que mostram o quanto a cidade é boa pra educar seus filhos - ó lá filhão, se você não parar agora o moço da estátua vai te pegar. As estátuas são réplicas, já que as originais foram distribuídas por museus, mas causam o mesmo suspense. E na extremidade da ponte do lado da cidade velha, ainda há um museu de instrumentos medievais de tortura.
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| Ponte Carlos |
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| Torres góticas fazem sombra na Old Town Square |
Hollywood se aproveita muito dos panoramas e das pontes durante o dia e dos becos sinistros à noite - Do Inferno, filme sobre Jack, o Estripador, tem Londres como pano de fundo, mas Praga foi escolhida para a filmagem de várias cenas noturnas. Menos aterrorizante, mas muito mais dramático, Amadeus também é um grande filme pra inspirar uma viagem à cidade. A biografia, que transformou Mozart em um cara cool, teve várias locações na cidade que, na época do longametragem, ainda era um segredo para o ocidente. Principalmente espaços internos, como o Prague Estates Theatre, onde Mozart estreou e performou Don Giovanni.
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| Um dos monumentos que vigia a Ponte Carlos e o Castelo de Praga ao fundo |
Escura, porém segura. A noite de Praga tem dois pontos que são infalíveis pra se orientar: o centro da Cidade Velha ou a Wenceslas Square - que apesar no nome, é uma avenida - sempre têm algum burburinho. A primeira opção vale pra um belo jantar, desses que caem bem em dias frios; a segunda é mais agitada e é o ponto de partida pras baladas e as atrações proibidas para menores.
No contra-fluxo, do outro lado do rio Vlatva, a rua Karmelitska tem restaurantes de várias partes do mundo e quase todos os frequentadores são locais. Pra chegar lá, como em qualquer outro lugar, despreze o metrô. Não que não seja bom, muito pelo contrário, mas Praga tem uma rede metrô de superfície super compreensiva e com sinalizações que não podiam ser mais claras.
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| Teatro de marionetes, uma tradição da República Tcheca |
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| Cidade amarela: iluminação fraca que aumenta o clima de suspense em Praga |
Linda demais pra se estar debaixo da terra. Tão encantadora, que seu nome é mais forte que o nome do próprio país. Um país, aliás, cheio de catedrais imensas, mas onde quase 50% dos habitantes são ateus. Praga é a cidade grande que se descolou mais rápida e intensamente dos costumes da época do socialismo. Aprendeu com a Europa ocidental como mudar seus hábitos e, hoje, ela é que é a referência. Misteriosa, jóia que nunca esteve completamente escondida mas, talvez, também nunca vá se revelar por completo.
Veja também:
- Praga, a cidade das torres
- Praga: comida de rua, mas feita por chefs












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