sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Praga não está mais escondida, muito menos revelada


Ao contrário do que eu imaginava, o turismo de Praga nunca foi pequeno. "Mesmo em épocas de de União Soviética, já era um destino bem procurado por habitantes do bloco" - me contou uma estudante de hotelaria em uma conversa de trem - "A diferença é que agora Praga é que ficou pequena para o turismo."



De fato, Praga tornou-se diminuta pra tanta gente. Ela vive, hoje, uma romanização - existe um raio a partir do centro, onde estão concentradas as principais atrações, que virou uma área de extinção de nativos. Quase não há moradores, porque a maioria já foi empurrada para subúrbios residenciais e não existe mais baixa temporada. Verão é verão, a Europa sai de férias e viaja mesmo; o Inverno é frio pra danar mas tem o apelo da neve e das decorações de natal, que deixam a cidade com uma atmosfera épica; e primavera e outono são a alta estação de quem não gosta da alta estação.

Old Town Square - o centro da cidade velha, onde Praga começou

Relógio Astronômico, na Torre da Prefeitura da Cidade Velha

Se isso é ruim? Por um lado, os grupos que começam a brotar de tudo quanto é lugar a partir das 9:30 da manhã deixam as zonas principais num clima meio Disney. Por outro, o turismo é um mercado que gera grana e empregos como nenhum outro, em todas as áreas.

Bonde: depois dos seus pés, o melhor jeito de se mover em Praga

Além disso, com o crescimento de Praga, não só a região central se mantém vitalizada, como bairros mais afastados também. O Zizkhov, por exemplo, dono de um patrimônio arquitetônico fantástico, se torna ainda mais vivo quado a noite cai. Os bares da moda se acendem, com iluminações minuciosamente planejadas pra serem vistas do lado de fora, pelas vidraças gigantescas, chamando o pessoal pra ambientes ultra aconchegantes. Fica fora do circuito turístico, mas é facílimo de chegar: o metrô Jiriho z Podebrad fica no meio do bairro. Foi no Apetit, um restaurante simples na Rua Vinohradská, que comi o melhor, mais barato e mais farto goulash da viagem toda - 100 Kc (+ ou menos 10 reais).



É de noite, também, que Praga se torna ainda mais cenográfica. Contradizendo uma forte tendência das cidades grandes, não fica mais bonita porque, as luzes, espantosamente fracas, tingem as
ruas e paredes de amarelo. Mesmo a Ponte Carlos, o principal marco da cidade, não consegue escapar. Os monumentos que vigiam os dois lados da ponte mais antiga da Europa são tão sombrios, que mostram o quanto a cidade é boa pra educar seus filhos - ó lá filhão, se você não parar agora o moço da estátua vai te pegar. As estátuas são réplicas, já que as originais foram distribuídas por museus, mas causam o mesmo suspense. E na extremidade da ponte do lado da cidade velha, ainda há um museu de instrumentos medievais de tortura.

Ponte Carlos

Torres góticas fazem sombra na Old Town Square

Hollywood se aproveita muito dos panoramas e das pontes durante o dia e dos becos sinistros à noite - Do Inferno, filme sobre Jack, o Estripador, tem Londres como pano de fundo, mas Praga foi escolhida para a filmagem de várias cenas noturnas. Menos aterrorizante, mas muito mais dramático, Amadeus também é um grande filme pra inspirar uma viagem à cidade. A biografia, que transformou Mozart em um cara cool, teve várias locações na cidade que, na época do longametragem, ainda era um segredo para o ocidente. Principalmente espaços internos, como o Prague Estates Theatre, onde Mozart estreou e performou Don Giovanni.

Um dos monumentos que vigia a Ponte Carlos e o Castelo de Praga ao fundo


Escura, porém segura. A noite de Praga tem dois pontos que são infalíveis pra se orientar: o centro da Cidade Velha ou a Wenceslas Square - que apesar no nome, é uma avenida - sempre têm algum burburinho. A primeira opção vale pra um belo jantar, desses que caem bem em dias frios; a segunda é mais agitada e é o ponto de partida pras baladas e as atrações proibidas para menores.
No contra-fluxo, do outro lado do rio Vlatva, a rua Karmelitska tem restaurantes de várias partes do mundo e quase todos os frequentadores são locais. Pra chegar lá, como em qualquer outro lugar, despreze o metrô. Não que não seja bom, muito pelo contrário, mas Praga tem uma rede metrô de superfície super compreensiva e com sinalizações que não podiam ser mais claras.

Teatro de marionetes, uma tradição da República Tcheca

Cidade amarela: iluminação fraca que aumenta o clima de suspense em Praga

Linda demais pra se estar debaixo da terra. Tão encantadora, que seu nome é mais forte que o nome do próprio país. Um país, aliás, cheio de catedrais imensas, mas onde quase 50% dos habitantes são ateus. Praga é a cidade grande que se descolou mais rápida e intensamente dos costumes da época do socialismo. Aprendeu com a Europa ocidental como mudar seus hábitos e, hoje, ela é que é a referência. Misteriosa, jóia que nunca esteve completamente escondida mas, talvez, também nunca vá se revelar por completo.

Veja também:
- Praga, a cidade das torres
- Praga: comida de rua, mas feita por chefs

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