segunda-feira, 23 de abril de 2012

Turismo soviético: por onde fazer

Praça Vermelha, Moscou

Essa esperança de acreditar na natureza humana, esse absurdo de achar que todos compartilhariam tudo - que um dia não foi considerado absurdo -, essa publicidade cool que conseguiu vender um governo melhor que qualquer benefício que ele traria, esse encanto pela ideologia que provocou a revolução mais bem sucedida do mundo e, ao mesmo tempo, o governo mais desastrado. Eu sempre quis ter tido a oportunidade de visitar a União Soviética.

As conexões vão além: das histórias da minha mãe, que é viajada que só, minha preferida ainda é sobre a viagem que ela não fez, quando deixou de ir a Kiev no auge da cortina de ferro; entre meus melhores amigos, crescemos ouvindo as americanices anti-americanizadas dos anos 70 (que na época já eram bem velhas) e discutindo manifestos de Marx; na faculdade de design, propaganda na guerra fria sempre foi um dos assuntos que mais interessavam; e minha namorada é sérvia e, com 20 e poucos, já teve que decorar 4 hinos por causa de tanta divisão de país.

O gosto pela coisa e a tendência a intelectualóide nunca me deixaram voltar no tempo para conseguir um carimbo da URSS mas, ainda assim, me jogaram de cabeça na história do leste europeu. Só pisando na Rússia recente pra ver como, mesmo com um shopping a cada esquina e um Mc Donalds à frente do Kremlin, a herança soviética ainda é tão presente - nos blocões de apartamentos com o machado e a foice se cruzando acima da porta, nos Ladas de quem ficou pra trás quando a Rússia engatou definitivamente no capitalismo e na pobreza incombatível na capital mais cara do mundo, Moscou.

Militarismo forte: herança soviética na Rússia

Estação de metrô Avtovo, em São Petersburgo

A mesma Moscou, aliás, mostra que se não faltou educação pra ninguém e foi cavada uma rede de metrô de primeiro mundo nos anos vermelhos, o orgulho de quem se recusa a aprender uma palavra sequer em inglês ainda persiste, atrasa a cidade, deixa os russos cada vez mais com fama de antipáticos e fecha as portas da indústria mais importante do mundo, o turismo.

Em São Petersburgo, a resistência não é tanta: o metrô tem sinalização em caracteres ocidentais e a população, mesmo que não esteja acostumada a hordas de turistas, pelo menos não os rejeita. Sempre há alguém que ainda gosta de conversar sobre o que presenciou há poucas décadas, como a dificuldade pra se ter um eletrodoméstico: mais frequente que as filas para comprar uma televisão era a falta delas em estoque - pra não ter que voltar pro fim da fila de mãos vazias, o camarada comprava qualquer outra coisa, como uma geladeiras de segunda mão.

Recordar a miséria, o totalitarismo, a linha tênue entre ideologia e abuso de autoridade e o excesso de contradições não deixa saudade mas, pela certeza do que não queriam, o comunismo e a URSS sempre causarão nostalgia. Especialmente pra quem não pôde ver.

Escritório pessoal de Trótsky, na casa onde foi assassinado, na Cidade do México

Praga: hoje, dificilmente se percebe qualqer influência soviética

 Veja por onde andar pra reviver um pouco desses anos:

- Na Nevsky Prospekt, avenida principal de São Petersburgo, experimente o Borsch, sopa tradicional da cozinha soviética, ou mate a saudade de casa com um conhecidíssimo Strogonoff. O Soviet Cafe tem tudo isso e decoração que mergulha o visitante no estilo de vida da Rússia dos anos 60,70 e 80. - Nevsky Prospekt: o centrão de São Petersburgo

- Experimente comida da ex-Iugoslávia, em Moscou. No aconchegante restaurante dentro da embaixada que ainda carrega o nome do país, sérvios, croatas, bósnios e montenegrinos lamentam a separação do país e relembram as épocas de prosperidade - comendo muito porco com batatas e secando garrafas de vinho. Não dispense o Karadjordjeva Schnitzel, um saborosíssimo steak de porco recheado à milanesa.

- Passe um dia inteiro na Praça Vermelha, em Moscou. Há muito o que se ver, fazer e descobrir na, até hoje, sede do governo russo e palco dos desfiles militares. - 10 motivos pra dedicar um dia integral à Praça Vermelha, em Moscou

- Visite o Museu do Comunismo, em Praga. A cidade que se descolou mais rápido e com mais eficiência do estilo de vida paradão do ex-bloco, tem um espaço pequeno, mas com recordações fantásticas. - Em Praga, o Museu do Comunismo

- Moscou era a matriz, mas nunca conseguiu tanta fama quanto sua filial, Berlim. A capital alemã é o destino mais lado B da Europa Ocidental e ainda preserva suas cicatrizes, como os restos do Muro de Berlim. - Mais Berlim!

- Fisicamente longe da muvuca, mas também muito envolvida, a Cidade do México foi o último refúgio para o principal braço direito de Lênin. A casa onde Léon Trótsky foi assassinado ainda conserva mobília original da época do seu mais ilustre morador. - Cidade do México: Eles passaram por aqui

Veja mais:
- Rússia: antes que tudo pareça impossível
- Praga, a cidade das torres
- São Petersburgo, sobre czares e Bolcheviques
- Todos os posts sobre a Rússia
- Todos os posts sobre a República Tcheca
- Todos os posts sobre a Alemanha
- Todos os posts sobre o México

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Nevsky Prospekt, a avenida que é o centrão de São Petersburgo

Church on the Spilled Blood, uma das atrações principais da Nevsky Prospekt

São Petersburgo, por mais que tenha sofrido 100% de influência da Europa Ocidentel em seu planejamento, foi construída para ser tão imponente que acabou por não ter aquele conjunto de ruas que formam o centrinho histórico. A arquitetura da cidade foi arranjada de forma que tudo ficasse gigante, o centrinho virou centrão e todo concentrado em uma mesma avenida, a Nevsky Prospekt.

Agitada noite e dia, em sábados ou segundas, no frio e no calor, a avenida de 8 faixas para carros e calçadas largas é onde tudo acontece em São Petersburgo. Um passeio pelo dinamismo e a história da cidade, como testemunham seus monumentos: começa na belíssima torre dourada do Admiralty - uma das primeiras obras erguidas a mando de Pedro, o Grande -, e termina em um obelisco socialista em frente a uma das famosíssimas estações de metrô soviéticas, construídas cerca de 200 anos depois, a Mayakovskaya.

Lojas e cafés da avenida tem janelas imensas pra acompanhar o que acontece lá fora

Sim, está escrito Cafe House ali em cima do toldo!

Church of Our Lady of Kazan, inspirada na Basílica de São Pedro

Marcos como a Church on the Spilled Blood, uma das catedrais felizes da Rússia - assim como a de São Basílio, em Moscou -, e a Church of Our Lady of Kazan, uma réplica da Basílica de São Pedro, também são avistadas ao longo da avenida.

Democrática, a Nevsky Prospekt recebe de executivos a mochileiros - na área mais nobre da cidade, ainda é possível comer barato e 24 horas. Fast food fica mais fácil de pedir por causa das fotografias mas, sentindo vontade de praticar um pouco seu russo, os restaurantes caseiros capricham mais. No Soviet Cafe, por exemplo, uma decoração de luz fraca e móveis simples dos anos
vermelhos, um bom e velho strogonoff agrada qualquer brasileiro por cerca de 7 dólares. Para experimentar algo novo, uma sopa como o borsch - feita com beterraba, cenoura, batata e outras raízes - cai bem com o frio que faz lá fora por mais de metade do ano. O restaurante, assim como quase todos os outros da Nevsky Prospekt, é instalado em um semi-subsolo, daqueles que não são o térreo, mas também não são totalmente submersos e, de dentro, ao se olhar pela janela, seus olhos estão no mesmo nível da calçada.

Nevsky Prospekt se ilumina e fica ainda amis movimentada durante a noite
Gostiny Dvor: mercado antes, shopping agora. fonte: Tragada Vitoria, Flickriver

Alta gastronomia também tem lugar, como no shopping Gostiny Dvor - o principal e mais bonito shopping da cidade, desde os tempos em que ainda era chamado de mercado -, ou nos hotéis das grandes redes, como Corinthia e Radisson Blu. E termina com um espresso duplo em um café moderninho, como o Coffeeshop Company, rede internacional, ou  a Cafe House, rede russa. Ainda há a possibilidade de explorar cafés mais tradicionais, daqueles que possivelmente já receberam gente como Tchaykovsky, Pushkin e Dostoyevsky.

A cada loja ou restaurante, a cada vielinha ou canal que a cruza, a cada praça ou monumento, a Nevsky Propekt é daqueles lugares onde as referências são só um empurrão incial pra sair andando por aí. Infestada de gente e de vida, São Petersburgo tem, na Nevsky Prospekt, quase uma cidade dentro da outra.

Veja mais:
- Muito antes do Bellagio, já havia o Peterhof
- O metrô de São Petersburgo, ou melhor, Leningrado
- São Petersburgo, Rússia: sobre czares e bolcheviques
- Hermitage, em São Petersburgo, só perde pro Louvre
- Rússia: antes que tudo pareça impossível

terça-feira, 3 de abril de 2012

Leonidas, a Páscoa barata da Europa


Às vezes, quando passo na frente de um lugar muito bonito, fico intimidado. Nem penso em parar, com medo do preço. Se tiver um sentinela te encarando logo que você ameaça por o primeiro pé pra dentro, então... eliminado!

Foi assim algumas vezes quando passava na frente da Leonidas, uma rede belga de chocolates. A primeira vez, nem lembro muito bem onde, até atravessei a rua. A lojinha era pequena, mas abastada e cheia de pompa. Assim, veio a segunda, a terceira e o resto, sempre ignorando a pequena grande loja, sei lá porquê.



Até que uma vez, me deparei com uma vitrine bem simpática. Justamente em Amsterdam, a cidades das bicicletas, me senti empurrado pra dentro da loja xará do inventor da bicicleta no futebol. Pela primeira vez, antes que me desse conta, estava numa filial da Leonidas.

Nunca fui chocólatra, mas a tentação causada por um dia frio é de encher a boca d'água. Todos os bombons enfileirados na vitrine são minúsculos, feitos não para empanturrar, mas para apreciar o sabor. Trufa, marzipan, com licor, mesclado, aerado, com frutas, diet, branco, amargo ou recheado - todos os sabores e formatos que se possa imaginar.



Um potinho cheio de chocolates por cima do balcão encoraja: try it. O único sabor disponível para degustação é justamente o chocolate ao leite, sem firula nenhuma. E é claro que aí é que a loja ganha qualquer um - sabe na padaria, quando mesmo com tanto sanduíche bom, você fica com o pão com mantega na chapa? O chocolate é tão bom, mas tão bom, que desperta a curiosidade de saber como ele deve ser nas outras variedades.

O preço de fazer sua própria caixa de chocolates com os sabores que você quiser: 21 Euros o quilo (aproximadamente R$50,00). Considerando que isso, às vezes, é o preço do salame no Brasil, não vale nem a pena fazer a comparação com os preços dos ovos de páscoa em São Paulo.



Uma marca que sequer atua no ramo de chocolates, mas no de presentes, e com preços tão mais acessíveis que no mercado que fica lá perto de casa. Sem contar que, fora as embalagens metálicas, nenhuma outra é cobrada a parte.

Depois de tanto fazer doce, me apaixonei pela Leonidas. História de amor correspondido porque, agora, ela aparece pra me ver em um monte de lugares. Sabe como é, quanto mais você faz doce, maior é a queda quando acaba cedendo. Uma lembrança bacana e barata pra Páscoa que está chegando.


Leonidas Belgian Chocolates
Damstraat 11, Amsterdam (onde foram tiradas as fotos)
Lojas espalhadas por Europa, América do Norte e Ásia


Veja mais:
- Índice de posts sobre a Europa


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Praga: Museu do Comunismo

Lenin recepciona os visitantes no primeiro cômodo do museu

Praga já não faz mais parte do circuito de turismo soviético. Rapidamente, após o fim do bloco, a cidade reergueu sua vocação para a bohemia. Extremamente acessível em alguns cantos, cobrando do couvert ao cafezinho em outros, Praga criou sua personaliade pós URSS seguindo o estilo de vida da Europa Ocidental.

Mas, localizado em uma das principais ruas da cidade e acima de um Mc'Donalds, o último respiro da estrela vermelha ainda se sustenta. Um museuzinho apertado, sem ter a verba ou a publicidade que merecia, guarda vários vestígios da Praga socialista. Ambientes cenográficos mostram o que o governo queria vender a população na época, exibindo a idelização de uma família soviética perfeita, tanto no lar, quanto no trabalho. Muitos dos objetos são originais e a coleção, de tão vasta, nem pôde ser devidamente encaixada em cada cenário.

A idelização de um ambiente de trabalho vendida para a classe proletária


Memórias da Ponte Carlos ocupada por desfile militar

Uniformes militares, armas, produtos enlatados, livros e posters, incluindo um recente que diz orgulhosamente bem acima do Mc Donald!. A disposição de tudo na sala de interrogatórios é quase assustadora, com a iluminação fraca, a fotode Stalin de um lado e o busto de Lenin, do outro, observando o coitado que que se atrevesse a levantar a mão contra o regime. Lenins, aliás, não faltam, e até um Marx gigante está exposto, mas ninguém no museu sabe de onde ele veio.

Fora a sala de vídeos, que mostra os protestos que tomaram conta da Wenceslas Square - dos dias mais violentos à Revolução de Veludo - , o museu é extremamente leve. Não é pessimista ou triste, como a maioria das recordações deste período e tem até um clima cool, pra falar a verdade. Na loja de souvenirs, por exemplo, um carimbo usado pela imigração, com a sigla CCCP (URSS, escrito em russo, com alfabeto cirílico), é uma lembrança única.

Réplica de sala de interrogatórios da Polícia da URSS

Stalin


Museu do Comunismo
Praga - República Tcheca
190,00 CZK (+ ou - R$19,00)