Chegar na Finlândia foi a glória. Sentimento de conquista, mesmo. Me senti um navegador desbravado. O clima, cerca de 15 graus com céu aberto, é um presente dado, em menos de um décimo do ano, a uma população acostumada ao frio intenso, camadas e mais camadas de gelo, árvores ressecadas e lagos patináveis.
Todos os cúmulos vistos em Estocolmo estavam lá também: o da simpatia, da educação, da receptividade e da organização. Helsinki já recebe quem chega por água no maior mercado de rua da cidade. Em frente a prefeitura, a feirona tem barracas de bugigangas que não são tão bugigangas e comidas de rua que dão um banho em muito restaurante. Não pelo sabor, até porque geralmente comida de rua compete forte com qualquer restaurante estrelado. Mas pela higiene, pelos produtos frescos e a apresentação, não só da comida, mas das feirantes também, que podiam ser modelos. Ou tradutoras, já que a mais simplezinha tinha 5 bandeiras de idiomas coladas ao crachá com seu nome.
A opção por trabalhar na feira também não é das piores, já que cobrar 20 Euros por um prato de peixe servido no papelão não é pra qualquer um. E mais: vale cada centavo, a ponto de querer repetir. Ainda mais sabendo que os mega desenvolvidos finlandeses aceitam, até na barraquinha improvisada, cartão.
Minúscula, Helsinki é 100 por cento feita pra ser caminhada. Há metrô e metrô leve - que eu insisto em chamar de bonde - também mas, pela primeira vez, eu queria poder ver as coisas no meu ritmo. Assim como Estocolmo, há a parte peninsular e as ilhotas espalhadas aos montes pelo mar báltico. A mais famosa, que tem os restos de uma forteleza militar, teve que ficar pra próxima. Eram só 24 horas e eu estava a fim, mesmo, de saber porque Helsinki é considerada uma das cidades mais inovadoras e carro-chefe do design, sendo eleita, inclusive, capital do design em 2012.
É engraçado ver que, das lojas de departamentos aos cafés, os caras invertem a ordem das coisas
para continuarem sendo pioneiros - os negócios, ao invés de serem regidos por empresários que investem em design, são liderados por designers que aprenderam a empreender. O bairro cool de Helsinki, inclusive, chama-se design district. Chegando lá e comparando com o que tinha visto até então, fiquei sem entender qual parte da cidade era o no design district.
Entrar em um barzinho descolado, desde de Estocolmo, já estava virando rotina, sem nunca virar chatice. Ficar encantado com cada detalhe pensando que aquela idéia podia ser minha me deixou mal acostumado. A cultura de cafés facilita, já que não há lugar mais propício pra se arriscar design que um café. Tudo é meio experimental, mas ao mesmo tempo harmonioso como só alguém que manja muito poderia fazer. Desde colunas egípcias misturadas a tetos japoneses até as cadeiras tão contemporâneas, que me fizeram perguntar, várias vezes, se aquilo era mesmo confortável. Conforto também é prioridade pra quem desenvolve sabendo que as coisas têm que se adaptar as pessoas e não o contrário. No hotel, por exemplo, o chão esquentava pra gente poder andar descalço.
Falando em hotel, em Helsinki, acho difícil que alguém consiga estar mal localizado. Provavelmente, se a chegada não for de avião, não há necessidade alguma de usar outro tansporte que não seja as pernas. Depende do tamanho da mala, claro, e aí o bondinho elétrico silencioso vai te dar uma mão.
Pra fechar, uma noite classuda no Kappeli, um restaurante instalado no interior de uma ex-estufa, com três ambientes - bar, restaurante e self-service de bebidas. Todo envidraçado, oferece vistas lindas para o parque em que está instalado, o Esplanadin Puisto, e não menos bonitas para quem olha de fora pra dentro. Outra noite que que não foi noite, outra despedida, outra vez ansioso pelo dia seguinte, quando ia pegar o trem pra São Petersburgo.
Continua no post
Helsinki a São Petersburgo de trem, o último trecho
Veja também:
- Escandinávia: pra curtir a rota
- Escandinávia 2: de Copenhagen a Estocolmo de trem
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- Estocolmo: turistando como um local
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